Mar de lama e pouca chuva: água de BH agoniza

Na segunda reportagem da série “As águas de Belo Horizonte”, um raio-x do caminho da captação e distribuição na capital mineira

Como e quando o sistema de abastecimento de água entrou em colapso?

Morador de Belo Horizonte pode não saber, mas é um atingido pela mineração

Na primeira reportagem da série, nós do Lei.A mostramos o que são outorgas, como elas são concedidas e quem são os grandes usuários (se não leu, clique aqui link). Agora é importante você saber que as empresas que fazem o abastecimento e a distribuição de águas das cidades também precisam de outorgas para realizar esse serviço. É caso da Companhia de Saneamento de Minas Gerais (Copasa) que, mesmo sendo uma empresa pública do Governo de Minas Gerais, é considerada como uma grande usuária de água. Como explicamos, os usuários de grande porte ou de grande quantidade, independentemente de suas naturezas, precisam ter a outorga. 

Nessa segunda reportagem da série “As Águas de Belo Horizonte” conheceremos os mananciais utilizados pela Copasa; mostraremos como é feita a captação e distribuição dessa água e apontaremos como a destruição de uma importante fonte de recursos hídricos trouxe o colapso do sistema com situação de escassez, que prenuncia a falta de água e o racionamento na capital mineira. 

#Conheça

A água que chega à região metropolitana de BH 

Antes de apontarmos os motivos que nos levaram a esta nefasta condição, é necessário entender de onde vem a água que abastece a Região Metropolitana de Belo Horizonte (RMBH) e como é feita sua distribuição.

As captações da água que abastecem a RMBH concentram-se em duas bacias hidrográficas: dos rios das Velhas e Paraopeba. De acordo com a Agência Nacional de Águas (ANA), a Bacia Hidrográfica do Rio das Velhas contribui com a maior parte, provendo mais de 40% de toda a água consumida por mais de cinco milhões de pessoas. No caso específico da capital, essa captação representa cerca de 70%. Já a Bacia Hidrográfica do Rio Paraopeba provém outros 30% da água que é distribuída para Belo Horizonte, mas também para outras 16 cidades de sua região metropolitana.

Existe diferença na captação de água entre as duas bacias. Enquanto na Bacia do Velhas a captação é feita por fio d’água, ou seja, de forma direta no leito do rio, sem que a água passe por um grande reservatório, a captação na Bacia do Paraopeba é feita – em sua maior parte – a partir do uso de reservatórios (como acontece, por exemplo, no sistema Cantareira em São Paulo). 

#Monitore
Sistemas interligados 

 

Apesar de parecer que uma bacia está completamente desvinculada da outra, com os anos e as reais projeções de escassez de água em cada um deles, a  Copasa integrou os sistemas, criando os chamados SINs, ou seja, Sistemas Integrados (SINs). Trata-se de um conjunto de empreendimentos para captar, tratar e conduzir a água dos mananciais até o local de consumo, ou seja, às caixas d’água e torneiras. Por estarem interligados, no caso de faltar água em algum deles, outro entra em operação, até que a situação se normalize. 

Os dois principais sistemas que são abastecidos pela Bacia do Rio das Velhas são o SIN Morro Redondo e o SIN Rio das Velhas. Ambos estão localizados no Vetor Sul da cidade de Belo Horizonte e juntos fornecem aproximadamente 7.000 litros de água por segundo, distribuídos para a Região Metropolitana de Belo Horizonte

Já os SINs que captam água da Bacia do Rio Paraopeba (Serra Azul, Várzea das Flores e Rio Manso, Barreiro, Ibirité e Catarina) fornecem cerca de 6.000 litros de água por segundo. Nos mapas e tabelas abaixo vemos o caminho de cada um desses sistemas, sua capacidade, bem como seus principais mananciais e municípios que abastecem. Dá para começar a entender de onde vem a água que chega determinada região ou bairro da cidade.

Fonte: http://atlas.ana.gov.br/

O passo-a-passo do caminho das águas 

 

Como o sistema entrou em colapso

Em meados de 2014, cenas do baixo nível de água nos reservatórios que abastecem a Região Metropolitana de BH ocupavam as páginas dos principais jornais do estado e deixaram os moradores em alerta. Embora aquele fosse um ano de poucas chuvas, a situação não deveria ser atribuída unicamente ao clima. Uma séria de outras situações escancararam a fragilidade de um sistema de abastecimento que dava sinais de esgotamento: aumento do consumo, pressão do crescimento urbano acelerado do entorno da capital, perdas na rede de distribuição, extinção de áreas de recarga hídrica (desmatamento, mineração e expansão imobiliária) e o avanço da atividade minerária sobre o lençol freático. 

Diante desse quadro, foram realizadas obras de emergência que resolveram momentaneamente o problema, sendo que a mais importante delas foi a construção de uma estação de captação a fio d’água no rio Paraopeba, instalada no município de Brumadinho. 

A captação começou a operar em dezembro de 2015. Ela passou a transpor parte da água do Rio Paraopeba para a Estação de Tratamento (ETA) do Rio Manso, onde era tratada e incorporada ao Sistema Integrado Paraopeba. A obra, que teve um custo de R$ 128 milhões à época, foi considerada uma intervenção fundamental para que o abastecimento da Região Metropolitana de Belo Horizonte não entrasse em colapso já naquele ano. 

Até dezembro de 2015 toda a água armazenada nas represas de Rio Manso, Serra Azul e Vargem das Flores vinha da chuva e da captação em pequenos afluentes. Com a conclusão da obra, os três reservatórios ganharam um reforço de 5000 litros de água por segundo (uma piscina olímpica a cada oito minutos). No período entre os anos de 2015 e 2017, mesmo tendo com o volume de chuvas tendo ficado abaixo da média histórica na RMBH, em função da nova captação, foi possível acumular 215 bilhões de litros de água nas três represas, um dos maiores volumes da história (para se ter uma ideia, a capacidade da represa da Pampulha é de 10 bilhões de litros).  

 

O rompimento de barragens = racionamento de água em BH

 

A integração das bacias funcionou bem até o dia 25 de janeiro de 2019, quando o complexo de barragens da Vale, em Brumadinho, se rompeu, matando cerca de 270 pessoas e contaminando toda a água do Paraopeba com a lama da mineração. A captação no local precisou ser interrompida imediatamente. Desde então, são os três reservatórios citados que mantém funcionando o SIN Paraopeba. Porém, este não possui condições de suprir a situação de escassez do Rio das Velhas, que dá sinais de que não está suportando a grande demanda de Belo Horizonte e região por abastecimento de água, somado ainda ao intenso volume consumido pela mineração. 

Em abril desse ano, a Copasa afirmou que, sem a captação no Rio Paraopeba, seria possível atender a população da região apenas por 20 meses, ou seja, até o início de 2021. Porém, a depender das chuvas, esse prazo poderá ser encurtado, já com racionamento podendo ter início a partir do mês de março de 2020.  

No dia 8 de julho, em audiência ocorrida em Belo Horizonte, com a participação de representantes dos Ministérios Públicos Federal e do Estadual, da Copasa e do governo estadual, além da Vale, foi assinado um documento para construção de uma nova captação no Rio Paraopeba, cerca de 12 km acima do ponto atingido pelos rejeitos da barragem da Vale. A obra será paga pela mineradora e substituirá a estrutura de captação que foi destruída a partir do rompimento da barragem da Vale. 

Porém, as obras não devem ficar prontas antes do fim do ano de 2020 e, ainda por cima, não resolverá por completo o problema do abastecimento, gerando outros inclusive. É disso que vamos falar nas próximas reportagens da série especial “As águas de Belo Horizonte”, sobre as situações que colocam BH e região diante de um possível colapso hídrico.

 

Próxima reportagem: o Sinclinal Moeda

Na reportagem seguinte da nossa série especial vamos tratar do Sinclinal Moeda, uma importante estrutura geológica existente no Vetor Sul da capital, que é o principal reservatório de água subterrânea de todo o Quadrilátero Ferrífero. Para explicar essa formação e sua importância, o Lei.A entrevistou o engenheiro de minas Wilfred Brandt, que foi consultor de Programas das Nações Unidas (PNUD, PNUMA e Unesco), no Brasil, Alemanha, Uruguai, Equador e Venezuela.

 

#Aja

Estude a água da sua cidade

Depois de entender o caminho da água do abastecimento de Belo Horizonte, descubra no mapa a qual bacia hidrográfica a sua região pertence: link

Pesquise na plataforma digital do Lei.A

Na nossa plataforma, você pode pesquisar quantas outorgas ou captações de águas existem na sua cidade. Basta clicar na foto abaixo.

 

 

 

Quer receber nossas publicações sem precisar entrar todos os dias em nosso site?

 

 

Share

2 Pings & Trackbacks

  1. Pingback: BH sem água: o deserto está perto de ser aqui - Lei.A

  2. Pingback: Rio Paraopeba: o manancial que virou lama - Lei.A

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *