Entre Rios e Ruas: às margens de qual córrego ou ribeirão tampado você mora?

Projeto de artista mineira conta com uma série de intervenções e exposições que buscam tirar os rios, ribeirões e córregos de Belo Horizonte da invisibilidade 

Qual o endereço do Observatório Lei.A? Fazenda do Capão, no Vale do Córrego do Leitão, margem direita, por entre as plantações de cana de açúcar e café, engenhos, olarias e olhos d’água. 

Esse sim era um dos cenários do início do século XIX, da região onde se planejou construir a nova capital de Minas Gerais. Uma cercania formada por um emaranhado de morros, montanhas, vales, pouquíssimas fazendas extremamente artesanais e milhares de cursos d’água. 

Saiba mais sobre o Córrego do Leitão, no estudo de Alessandro Borsagli, fonte do Lei.A, apresentado durante o Simpósio de Cartografia Brasileira de 2011: link 

Esse emaranhado de riachos, entre eles o Leitão, acabava por formar a Bacia do Ribeirão Arrudas, a região onde hoje, aproximadamente 130 anos depois do início da construção da nova capital, está Belo Horizonte. Uma metrópole de concreto e asfalto com praticamente 100% de seus cursos d’água secos, assoreados, transformados em canais de esgoto e tampados para priorizar o tráfego de veículos e a especulação imobiliária.  

Esse cenário ambientalmente desolador, mas “invisível” para a população em geral, aos poucos, vem ganhando mais discussões, reflexões, propostas técnicas de mudança e também provocações por meio da arte. É a partir de uma dessas intervenções, chamada “Entre Rios e Ruas”, da artista visual Isabela Prado, que nós, do Lei.A, produzimos esse conteúdo para você.

 

#conheça 

O Ribeirão Arrudas nasce em Belo Horizonte, banha alguns bairros do município de Contagem, percorre a área central da capital e deságua no rio das Velhas, em Sabará. Sua bacia é composta por diversos córregos: Jatobá, Barreiro, Bonsucesso, Cercadinho, Piteiras, Leitão, Acaba Mundo, Serra e Taquaril, Navio-Baleia, Santa Terezinha, Ferrugem, Tejuco e Pastinho. Como mostramos em um dos nossos conteúdos sobre as águas de Belo Horizonte (link), desde o início do planejamento da cidade não houve cuidado com a preservação de suas águas. E elas eram extremamente abundantes por aqui. O que aconteceu com o tempo foi o crescimento do espaço urbano, provocando a ocupação das margens do Arrudas e jogando todo o esgoto da população em seu leito. 

 

Ao longo dos últimos cem anos, o Ribeirão Arrudas sofreu diversas agressões e intervenções que tinham um suposto desenvolvimento urbano como prioridade. Para abrir espaço para novas construções e carros, parte de seu leito foi pavimentado e canalizado já nas primeiras décadas após a inauguração da capital. Suas margens foram transformadas em avenidas e a vegetação foi quase toda suprimida. Sufocado por esgoto industrial e doméstico, o ribeirão acabou sendo estigmatizado como um elemento sujo e desagradável da cidade, muito distante daquele onde nossos antepassados nadaram e pescaram um dia.  

Em 2005 começaram as obras determinantes para distanciar ainda mais a população desse ribeirão que faz parte da história de Minas Gerais. Com a justificativa de melhorar a articulação viária e de transporte entre Belo Horizonte e sua região metropolitana, o governo estadual, comandado na época por Aécio Neves (PSDB), em parceria com a Prefeitura Municipal, então capitaneada por Fernando Pimentel (PT), iniciou um mega projeto que incluía intervenções nas avenidas Andradas, do Contorno, Cristiano Machado, e na rodovia MG-010.

O projeto ligou, por meio de uma  via expressa com 35,4 km de extensão, o centro de BH ao Aeroporto Internacional Tancredo Neves, localizado em Confins. Para viabilizar a obra como planejada, era necessário tamponar o Ribeirão Arrudas, fazendo dele um “boulevard” – uma espécie de via pública. O curso d’água foi coberto pelo concreto. 

Foto: BIMIG

 

Uma ação na contramão do mundo ambientalmente moderno

Em 2006, depois de seis anos morando no exterior, a artista visual Isabela Prado encontrou um lugar diferente ao retornar à Belo Horizonte. Muita coisa permanecia parecida, mas também houve sustos com as mudanças. “O tamponamento do Ribeirão Arrudas mexeu muito comigo. Perturbou-me enquanto habitante da cidade. Gerou um estranhamento gigante o apagamento de um elemento tão importante, que servia como um ponto de referência para quem passava por ali”, relembra. 

Ao perceber os motivos que levaram o principal ribeirão da capital mineira a ser alterado de forma tão drástica, Isabela encontrou  justificativas que aumentaram ainda mais seu desconforto. “Associavam aquela obra a um benefício tremendo para a população, usavam o termo ´onda verde´, ‘linha verde`, mas pensando no fluxo dos carros. Ignorava por completo o fluxo das águas”, relembra. 

Percebendo a inversão de valores acontecendo no lugar de onde veio, Isabela sentiu como se Belo Horizonte estivesse caminhando na direção inversa do progresso. “Eu desabafava sobre o rio tamponado em Belo Horizonte com meus amigos do mestrado, e uma colega coreana me relatava o caso do rio Cheonggyecheon, na capital da Coréia do Sul. No passado, ele foi um córrego de lixo e esgoto. Hoje, é atração turística internacional após passar por um processo de revitalização urbanística. Isso acentuou ainda mais a sensação de que a gente estava indo pelo caminho inverso. E aquilo me perturbou profundamente”, conta. 

 

#monitore

A arte como resposta

Desse desconforto surgiu o projeto “Entre Rios e Ruas”,  desenvolvido por Isabela Prado desde 2006. O projeto é composto por uma série de intervenções artísticas que vão desde performances até a instalação de novas sinalizações geográficas pelas ruas e córregos tampados de Belo Horizonte”. 

Minha ideia é, por meio dessa série de trabalhos artísticos, pensar um pouco sobre essa paisagem submersa, sobre essa rede de águas ignoradas na cidade, porque fizemos questão de afastar dos nossos olhos, e falar da invisibilidade a partir dessas escolhas”, explica Isabela. 

 

Os mofos nas paredes se tornaram insumo para um dos primeiros trabalhos do projeto Entre Rios e Ruas, em 2007. Durante mais de um ano, Isabela coletou imagens registrando os desenhos formados pelos bolores na parede, uma forma de falar sobre a potência da água. “A gente tenta domar, alterar o curso, e contê-la dentro do nosso desejo, dentro do que a gente considera ser bom, útil ou favorável, e na verdade existe uma força muito maior que nos escapa. Seria preciso estabelecer um diálogo muito mais harmônico de convívio do que a gente chamaria de progresso e evolução. Estamos falando sobre a água, um elemento indispensável na nossa vida”. 

O resultado desse trabalho ficou pronto em 2012, em formato de vídeo, no qual o desenho úmido nas paredes é enquadrado e forma espécies de manchas cartográficas. Os mapas formados pelo bolor encontram-se uns com os outros, alterando e expandindo fronteiras. As cores vão mudando, e é possível ver os desenhos ganhando volume. “As formas, as texturas e os movimentos mostram o rio seguindo, desenhando seu próprio percurso”, conclui Isabela. 

 

Bebendo informação 

Convidada a apresentar o “Entre Rios e Ruas” em uma conferência realizada no Museu de Arte da Pampulha, Isabela executou pela primeira vez a performance “Ou vir o rio”, em que serve copos d’água para o público, com informações impressas sobre a extensão dos córregos canalizados e em leito natural em Belo Horizonte. Ao mesmo tempo, são executados no ambiente áudios coletados pela artista, de alguns córregos encobertos da cidade, como Leitão, Serra e Acaba Mundo. “A proposta do público beber essa informação reflete bem o espírito do projeto, que parte muitas vezes de informações objetivas, quase técnicas, sobre o tema, e propõe uma abordagem poética e plástica”.

Criar novas paisagens 

Com o tempo, outros trabalhos foram desenvolvidos dentro dessa mesma ideia de trazer os rios para a superfície da vida das pessoas. Isabela conta que usava os mapas públicos da prefeitura que retratam as bacias e a forma como elas estão no ambiente – canalizadas e fechadas, canalizadas e abertas ou em seu leito natural – para pensar novas possibilidades. A instalação Repaisagem, parte da exposição apresentada  em 2012 na Funarte, em Brasília, utilizou mantas magnéticas, correspondentes a todos os trechos de córregos em leito natural da capital mineira, para sugerir a participação do espectador na criação de novas paisagens possíveis. 

Arquivo Pessoal/Isabela Prado

Essas mesmas linhas que contam histórias foram a base para outra instalação do projeto, chamada Montante Jusante, são desenhos em carbono feitos para remontar as perspectivas. “A paisagem tem essa maleabilidade e muitas vezes a cidade não dá conta de se harmonizar com isso, fica querendo criar uma ordem, sendo que a paisagem tem uma ordem que respira, que se ressignifica”, diz.

 

Arquivo Pessoal/Isabela Prado

 

Corpo, espaço e escala 

Como falar sobre políticas públicas para os rios sendo que não os enxergamos? Nessa mesma tentativa de tirar os rios da invisibilidade, Isabela criou o trabalho Jóia. Ele retrata, por meio de um broche de ouro de 9,5 cm, replicando em escala 1:10.000 o traçado dos últimos 950 metros de leito natural do Ribeirão Arrudas dentro dos limites do município de Belo Horizonte. 

Arquivo Pessoal/Isabela Prado

 

Arquivo Pessoal/Isabela Prado

 

Se essa rua fosse minha 

O projeto também ganhou as ruas e avenidas de Belo Horizonte com a performance Lição: se essa rua fosse um rio. Nela, o músico Paulo Thomás ministra uma aula de violino em espaço público, na qual tenta ensinar para a artista Isabela Prado a execução da melodia de domínio público ‘Se esta rua fosse minha’. As aulas-performances ocorrem sempre em ruas sob as quais correm trechos dos córregos da cidade. “O trabalho é uma metáfora para a dificuldade em estabelecer uma nova relação e uma nova consciência da cidade acerca do ambiente”, explica Isabela.

Nos bastidores, a preparação para a realização da performance é também uma oportunidade de ouvir quem faz parte dos cenários reais. “Quando vamos conversar com lojistas e moradores, por exemplo, para pedir um ponto de energia emprestado para o trabalho, temos a chance de escutar os casos. A questão da memória é muito acentuada. São pessoas que, de fato, convivem com aqueles córregos encobertos. Os mais velhos chegam com as lembranças dos tempos em que as águas corriam livres, e aí vamos fortalecendo a narrativa desses rios que existem”, conta. 

 

Arquivo Pessoal/Isabela Prado

 

Sobre o Rio 

A evolução dos trabalhos fez Isabela sentir a necessidade de fazer algo mais perene para tirar os córregos escondidos da invisibilidade. Daí surgiu a obra Sobre o Rio, cuja execução foi posteriormente viabilizada por meio do Edital da Lei Municipal de Incentivo à Cultura 2017-2018. Tendo como base os afluentes do Ribeirão Arrudas, foram elaboradas placas de sinalização dos córregos para serem instaladas de forma permanente junto às placas que sinalizam as ruas de Belo Horizonte. “Considerando as restrições orçamentárias do projeto, que não me permitiriam abranger todos os córregos da cidade, optei nesta etapa por sinalizar toda a área interna da Avenida do Contorno, núcleo do planejamento original da cidade. Foram os primeiros córregos a desaparecer da paisagem” explica Isabela.

Arquivo Pessoal/Isabela Prado

 

O início da instalação das cerca de 240  placas coincidiu com as enchentes de 2020, que devastaram diversas áreas da capital mineira e deixaram muitas vítimas. “Por ter sido bem em sintonia com esse acontecimento, as pessoas achavam que as placas novas nas ruas eram uma reação da própria prefeitura reconhecendo a importância de se olhar para os rios. E isso, para mim, já reforçou a relevância de se falar sobre o assunto”, conta. 

Arquivo Pessoal/Isabela Prado

 

Quem passa pela Avenida Bias Fortes tem a chance de saber que ali também é o lugar onde está o Córrego do Leitão. Quem caminha pela Avenida Francisco Sales, agora sabe que ali também vive o Córrego da Serra. Já na Avenida Brasil, ficou registrada a existência do Córrego Acaba Mundo. Quem sabe assim, com os olhos vendo, o coração sente a existência dessas águas escondidas? 

Nós, do Lei.A, aqui do alto da Fazenda do Capão, passamos a olhar para a avenida Prudente de Morais, como sendo o nosso Córrego do Leitão. E você, sabe às margens de qual córrego ou riacho está?

 

#aja 

Fortalecer movimentos que lutam pelas águas das nossas respectivas cidades é uma forma de agir pela mesma causa. Se você gostou do trabalho realizado pela artista plástica Isabela Prado e sua equipe, acompanhe nas redes sociais e divulgue para quem você achar que pode se interessar pelo assunto.

Se você se sensibilizou pelo tema e quer contribuir com quem se mobiliza pela causa das águas (que no fundo, é de todos nós) participe e fortaleça quem já faz parte desse movimento, seja oferecendo a sua colaboração ou compartilhando o que essas pessoas realizam para potencializar essas ações:

Sub-Comitê da Bacia Hidrográfica do Arrudas –  grupo consultivo e propositivo, vinculado ao CBH-VELHAS – Tel: (31) 3409.9818.

Projeto Manuelzão – Projeto de ensino, pesquisa e mobilização social da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) . 

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