BH, Meio Ambiente e Eleições 2020: cadê a cidade jardim que tinha aqui?

No terceiro episódio da série, resgatamos o que levou a capital mineira a ganhar o apelido que enaltece suas áreas verdes 

Da época de sua construção até os dias atuais, buscamos entender as principais questões que comprometem as áreas protegidas da cidade

Foram quatro anos de obras até que o antigo Curral Del Rei se tornasse Belo Horizonte, um salto no tempo na construção de uma cidade feita para ser o modelo de núcleo urbano planejado do Brasil. A nova capital mineira estava sendo feita em um momento no qual os espaços modernos eram pensados de forma a romper com o estilo de projeto colonial das cidades antigas, cheias de morros e curvas. 

Nesse mesmo período, os parques urbanos surgiam como um fator de relevância cada vez maior nos projetos arquitetônicos, seguindo uma forte tendência européia. Com Belo Horizonte não seria diferente, afinal, ela foi pensada para ser o símbolo da civilização e do progresso que a República desejava implantar no país. E a maré estava a favor desses objetivos: o terreno contava com uma vista exuberante e era rico em recursos naturais. Estava tudo pronto para a transformação de uma capital memorável. 

No início desse processo, quando ainda existia o Curral, em 1894, a Chácara Guilherme Vaz de Mello, mais conhecida como Chácara do Sapo, chamou a atenção da Comissão Construtora da Nova Capital. A topografia do terreno, a abundância de fontes de água cristalina, a confluência do córrego Acaba Mundo com o Ribeirão Arrudas e a riqueza da terra onde tudo brotava fizeram o lugar ser escolhido não só como morada dos chefes da comissão, mas também como o espaço que abrigaria aquele planejado a ser o maior parque da América, o Parque Municipal de Belo Horizonte. 

Chácara do Sapo. Fonte: Blog Família Vaz de Mello

Esse era o começo da história de uma capital que teria um amontoado de parques e jardins como um de seus pontos fortes. A ideia quase vingou. Belo Horizonte até chegou a receber o apelido de “Cidade Jardim” anos mais tarde. Para se ter uma ideia, durante seu planejamento, foram projetados 651 mil metros quadrados de áreas verdes. Desses, restam atualmente pouco mais de 248 mil. 

Mas o que será que aconteceu no meio do caminho para essa história mudar tanto? Neste terceiro episódio da série “Belo Horizonte, Meio Ambiente e Eleições 2020”, vamos resgatar alguns acontecimentos importantes para entender o desaparecimento gradual dos jardins da capital mineira.

Afinal de contas, Belo Horizonte ainda pode ser considerada exemplar pelas áreas verdes conservadas?

 

#conheça

O pulmão de Belo Horizonte 

A partir do momento em que a Chácara do Sapo foi escolhida, a Comissão Construtora da Nova Capital já cuidou de desapropriar quem nela morava, como fez com toda a comunidade do Curral Del Rei. Antes de se tornar o famoso Parque Municipal, o espaço abrigou pessoas envolvidas no projeto da nova cidade, como o arquiteto paisagista Paul Villon e o engenheiro e urbanista Aarão Reis. Eles viveram nas áreas do Parque de 1894 a 1897, enquanto elaboravam a nova capital e acompanhavam sua construção. 

O lugar tinha sido previsto para ser um “pulmão” para a cidade. A maior área verde local seguia um modelo naturalista, com jardim paisagista moderno, que tinha o Central Park em Nova York como principal inspiração. 

 

Como registrou o próprio Aarão Reis, o parque possuía, originalmente, uma área de mais de 600 mil metros quadrados, tendo como limites as avenidas Afonso Pena, Mantiqueira (atual Alfredo Balena), Araguaia (atual Francisco Sales) e Tocantins (atual Assis Chateaubriand). Pouco menos de dez anos após a inauguração da capital, porém, iniciou-se o processo de perda gradativa dessas áreas verdes para dar lugar a outras construções, como a Faculdade de Medicina, o Centro de Saúde do Estado, a Moradia Estudantil Borges da Costa, o Teatro Francisco Nunes, o Palácio das Artes e o Colégio Imaco. 

À medida que Belo Horizonte foi crescendo, o espaço ia sendo ressignificado. De sua área original, ele chega aos dias de hoje com apenas 182 mil metros quadrados, segundo a Prefeitura.

Arte: Mapa Parque Municipal Antes e Depois. Fonte: Arquivo Mineiro

 

Por onde anda a tal Cidade Jardim? 

Esse nunca foi um mero apelido. O conceito de “cidade jardim” surgiu a partir da publicação do livro “Tomorrow” pelo urbanista inglês Ebenezer Howard, em 1898. Observando as condições de vida caóticas das cidades modernas, ele trouxe para sua publicação um diagnóstico sobre a superpopulação das cidades e suas consequências.  Como muitas pessoas que ocupavam as grandes cidades vinham do campo e traziam de lá suas culturas e seus costumes, era necessário equilibrar a relação entre os espaços urbanos e os rurais. 

No livro, Howard fez um compilado das vantagens e dos problemas tanto de um ambiente como de outro, sugerindo que ambos atuassem de forma conjunta e coletiva. 

A proposta dessa nova alternativa de espaço urbano, integrado com a natureza, teve efeito em várias partes do mundo, influenciando, inclusive, a construção e a ampliação  de Belo Horizonte. 

Mas, se por um lado a capital tinha um planejamento que contava com largas ruas e avenidas, além de praças e parques grandiosos, por outro, havia o interesse de acabar com os traços do Curral Del Rey para que a cidade, enfim, inspirasse modernidade e progresso.

Fonte: HistoriAção https://pt.slideshare.net/jener32/bh-antiga-8910248

 

Para Luciana Bragança,  professora da Escola de Arquitetura da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e pesquisadora do Grupo Interdisciplinar da mesma instituição de ensino, é importante resgatar o histórico da criação de Belo Horizonte para o entendimento da cidade que existe hoje. 

“A ideia do projeto era desaparecer com o passado. Antes, existia aqui uma relação muito próxima entre pessoas e natureza, entre humanos e não humanos, que foi ignorada a partir da construção da capital. A gente vem com uma cidade moderna com um projeto de controlar ou de redesenhar todo o espaço, e junto com o espaço, redesenhar também o comportamento das pessoas”, explicou Bragança. 

Com o passar do tempo, a ideia de cidade-progresso foi tomando forma. Em 1940, o médico Juscelino Kubitschek assumiu a Prefeitura de Belo Horizonte, entrando para a história como “prefeito-furacão”, executando em tempo recorde grandes obras – como a pavimentação da Avenida Afonso Pena e a finalização da Avenida do Contorno. Foi também nessa época a criação da lagoa artificial da Pampulha, que constitui um importante espaço comum e verde  até os dias de hoje. Nos quatro anos em que administrou a capital, ele buscou evidenciar a função social de uma cidade sustentável, mas não perdeu oportunidades de atender aos anseios do capital imobiliário, ferroviário, e automobilístico. 

 

 

 

Resquícios da Cidade Jardim (para os abastados)

O último levantamento feito pela Prefeitura de Belo Horizonte em relação ao índice de áreas verdes por habitante é de 2010, e aponta para 18m² de espaços preservados por cada morador. Esse número seria motivo de orgulho, já que a Lei Orgânica do Município de Belo Horizonte, de 1990, definiu para a cidade o índice de áreas verdes de 12 m² por habitante, estipulado pela Organização Mundial de Saúde como o ideal a ser atingido.

Mas a pesquisadora Luciana Bragança chama a atenção para alguns pontos importantes: “Esse número não é territorializado. Se a gente analisar as áreas verdes de acordo com as regionais, vemos que elas se concentram na região Centro Sul, onde estão reservas como a Serra do Curral e o Parque do Rola-Moça. Se somente a população que vive em uma certa região, que é também a de maior poder aquisitivo,  tem acesso ao verde, a cidade jardim não é para todos que moram nela”, aponta.

 

Fonte: Grupo de Pesquisa Indisciplinar da Escola de Arquitetura da Universidade Federal de Minas Gerais.

Plano diretor e meio ambiente 

O primeiro plano diretor de Belo Horizonte foi elaborado pela PBH entre 1951 e 1952, durante a gestão do prefeito Américo Renê Giannetti. No projeto, além da análise dos aspectos de cadastro urbanístico, infraestrutura, tráfego, transporte e outros, estavam incluídos os parques, jardins, hortos e áreas verdes da cidade. 

Como se trata de uma lei municipal, ela é construída pelo Poder Executivo (Prefeitura) para logo depois ser analisada e aprovada pelo Poder Legislativo (Câmara de Vereadores), que estabelece regras, parâmetros, incentivos e instrumentos para seu desenvolvimento. De lá para cá, em média de dez em dez anos, ele é reformulado, com o objetivo de trazer definições que colaborem para uma melhor gestão e planejamento da cidade. Seu descuprimento tem consequências como multas, apreensão ou cassação de licenciamento, confisco de material ilegal, embargo de obras e demolições. 

Luciana detalha que o plano é associado à lei de uso e ocupação do solo, feita para direcionar a ocupação humana em determinado território. “Ele define onde pode construir, onde não pode, onde é permitido haver prédios altos, onde vão estar os mais baixos. Vai definir também as futuras possibilidades de crescimento do município, delimitando onde estão as áreas protegidas que não podem ser ocupadas, onde estão as ocupações que devem ser regularizadas, onde há espaço para árvores e para a infiltração de água, por exemplo”. 

 

#monitore

Em fevereiro de 2020 passou a valer o mais recente Plano Diretor da capital mineira, aprovado no final de 2019, após cinco anos de discussão na Câmara Municipal. A demora na conclusão do projeto provocou a sociedade civil a se mobilizar em grupos  para pressionar o voto favorável dos vereadores e vereadoras. Do outro lado estavam representantes do empresariado, contrários ao plano. O principal ponto de divergência era a outorga onerosa, discutida diversas vezes durante a tramitação.

Segundo esse mecanismo, empreendimentos imobiliários com área superior ao próprio terreno, sendo que essa área considera os diferentes andares possíveis do imóvel, devem pagar uma contrapartida ao município. O recurso, que não é considerado um imposto, é destinado a um Fundo de Desenvolvimento Urbano das Centralidades. A partir daí, seria revertido para investimento em habitação popular, equipamentos comunitários, de lazer e em  áreas verdes. 

O objetivo, de acordo com a Prefeitura, é alcançar um controle da  especulação imobiliária e ajudar a descentralizar o município, contribuindo para uma verticalização menos agressiva da cidade e para uma maior valorização dos espaços preservados. 

A lei também estabelece regras para controle de poluição sonora, visual, atmosférica, hídrica e do solo, fixando padrões de qualidade que devem ser seguidos, além de prever a proteção de áreas históricas, como quilombos. 

Outro ponto importante é a manutenção da taxa média de 12m² de áreas verdes por morador, além de prever políticas de reciclagem e campanhas de educação ambiental. 

A existência de um Plano Diretor compromissado com a preservação das áreas verdes da cidade é essencial para que as políticas públicas elaboradas durante sua vigência também sejam coerentes com uma cidade sustentável. Mas não é tão simples fazer com que suas determinações sejam cumpridas. Falta a existência de uma fiscalização que garanta os pontos em vigência. 

Nós, do Lei.A, conversamos com Leonardo Maia, coordenador estadual das promotorias de Justiça de Habitação e Urbanismo em Minas Gerais, sobre os desafios de zelar pelo cumprimento dessas e de outras leis relacionadas às áreas verdes de Belo Horizonte. Ele explicou que o órgão tem como dever fiscalizar as funções administrativas dos responsáveis pela administração pública e dos que trabalham na defesa do meio ambiente, além de facilitar o acesso da sociedade à Justiça por meio da Ação Civil Pública ambiental, por exemplo, um instrumento processual adequado para reprimir ou impedir danos ao meio ambiente, protegendo assim os interesses difusos da sociedade.

“Dado o tamanho da cidade, os desajustamentos nem sempre são fáceis de serem fiscalizados. Por exemplo, existe uma regra que não se pode fazer parcelamento de uma área depois que ela é regularizada, mas muita gente desrespeita isso e é complicado acompanhar tudo”, exemplifica o promotor. 

Segundo ele, quando existem efeitos de eventos extremos na cidade como um todo, como o dia mais quente da sua história ou as inundações do início do ano, a população é provocada a refletir de forma mais aprofundada sobre os assuntos. “Nesses momentos a atenção é chamada para a importância das áreas verdes, que abrandam, tornam a cidade mais resiliente a esses eventos”, afirma. 

Para Maia, o caminho mais eficiente é o da educação ambiental. “Depende mais do que tudo a questão cultural, das pessoas terem a percepção e aderirem ao que está definido na lei. E isso pode ser conquistado por meio da participação social em reuniões, comitês, presença em votações e mobilizações”, diz.

 

Ocupação e preservação 

Como reconhece o próprio Plano Diretor, são milhares de famílias que se organizam pelo direito a uma moradia digna ao longo da última década em Belo Horizonte e em sua Região Metropolitana. Dandara, Vicentão, Izidora, Pátria Livre, Carolina Maria de Jesus, Zilah Spósito, Tomás Balduino, Guarani Kaiowa e Vila Dias são somente algumas das comunidades organizadas para lutar por políticas públicas capazes de suprir o déficit habitacional da capital mineira. De acordo com um levantamento feito pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, junto ao cadastro único do Governo Federal e a Fundação João Pinheiro, atualmente há em Belo Horizonte 50 mil famílias sem casa, 64 mil moradias vazias, 822 famílias vivendo em habitação precária e outras 41 mil com ônus excessivo do aluguel.

Como explica Luciana Bragança, quando se fala em preservação ambiental dentro do contexto das ocupações urbanas, para muita gente se tratam de assuntos divergentes, impossíveis de serem conciliados. Mas eles têm a ver, e muito. “Quando as pessoas não têm alternativa de onde morar, existem poucas opções para elas: ou acabam indo para áreas de risco, ou para áreas verdes, preservadas, Por isso é tão importante a discussão sobre políticas de habitação. É de interesse de todos nós que essas pessoas tenham lugares seguros para viver, e não precisem ocupar áreas de relevância para a cidade como um todo”, explica. 

Em seu trabalho “Quem ocupa constrói contracondutas”, feito em parceria as pesquisadoras Marcela Silviano, Luiza da Anunciação e Matheus Silva Coelho, a pesquisadora investiga essa divergência e chama a atenção para um fato comum: os elementos naturais ou são eliminados da cidade pela lógica formal de urbanização, ou são protegidose concentrados em territórios de pouco acesso. Segundo a pesquisa, o capital imobiliário acaba sendo o real opositor das pautas de moradia e ambientais, inclusive fomentando divergências e políticas que excluem e ignoram o outro, seja ele a natureza, a cultura e, principalmente, a moradia para os pessoas vulneráveis inserida na cidade. 

A pesquisa sugere a possibilidade de uma harmonia entre a preservação ambiental e as ocupações urbanas já existentes na cidade. Esses tipos de proposta e ação podem ser vistos em diferentes contextos nas ocupações de Belo Horizonte. 

O projeto Parque das Ocupações, organizado pelo grupo Indisciplinar da Escola de Arquitetura da UFMG nas ocupações Eliane Silva e Paulo Freire, da região do Barreiro, é um exemplo dessa união. O objetivo amplo é a construção de diretrizes urbanísticas e paisagísticas, a partir de práticas e condutas da própria comunidade, que aproximem moradia e meio ambiente

Outro projeto que busca a junção desses temas é a mobilização feita pelo movimento “Deixa o Onça Beber Água Limpa”, que articula possibilidades da comunidade do bairro Ribeiro de Abreu, na região Nordeste, conviver da melhor forma possível com as águas do Ribeirão Onça. 

Após um triste histórico de enchentes que abalava com frequência as famílias ocupantes das margens do rio, a comunidade conseguiu pressionar a prefeitura, retirar as famílias das áreas de risco dando a elas moradia digna e ainda elaborar todo um planejamento de atividades de educação ambiental que acontece com frequência na região. Nós, do Lei.A, já contamos essa história aqui (link).

Foto: Lucas Prates/Hoje em Dia

As árvores que resistem 

Foi na década de 1960 que a população assistiu aquele que seria o primeiro emblemático episódio de corte de árvores em série na cidade. Nesse período, a capital já estava passando pela invasão de um inseto  de origem sul-asiática e ocorrência pan-tropical, o Gynaikothrips ficorum. Ele estava espalhado pelas ruas e avenidas de Belo Horizonte onde as árvores de fícus se aclimataram. Receberam o apelido de “amintinhas”, em homenagem irônica ao então prefeito Amintas de Barros. 

Mas a decisão do corte dos fícus da Praça Sete foi justificada pelo prefeito pela necessidade de melhorar o trânsito da área central. E assim foi feito. 

Um ano mais tarde, durante uma madrugada em novembro de 1963, cerca de 350 ficus foram decepados da Avenida Afonso Pena a mando de Jorge Carone, o prefeito seguinte. Ele argumentou que os cortes eram necessários devido à peste. O corredor de árvores era um símbolo da capital, e curiosamente sua derrubada não foi um ato isolado na mudança da arborização da cidade. Ao longo de toda aquela década, muitas outras ruas e avenidas tiveram suas árvores retiradas para que fosse possível alargá-las, em uma época em que a frota de carros em todo o país crescia assustadoramente. 

Nesse período, a capital mineira contava com quase um milhão de habitantes. “Eram muitos carros e Belo Horizonte já apresentava congestionamentos. Então, na cabeça dos prefeitos, o corte das árvores contribuiria para melhorar o trânsito. Mas, se a gente analisar, vemos que era perfeitamente possível ter conservado as árvores, porque a alteração no trânsito foi muito pouca”, diz o geógrafo e professor Alessandro Borsagli. 

De lá pra cá, os fícus voltaram a estampar as manchetes em 2013. As tais moscas brancas retornaram com tudo,  desta vez nas árvores centenárias da área hospitalar da cidade. Por causa disso, houve uma série de podas radicais que significava um extermínio gradual das espécies. Assistindo ao que acontecia, um grupo da sociedade civil se organizou em defesa delas, surgindo assim o movimento “Fica Fícus”.

As articulações entre moradores e movimentos sociais com a Prefeitura resultaram em  audiências públicas, reuniões, piqueniques coletivos e uma representação protocolada junto ao Ministério Público Estadual na busca por um destino diferente para aqueles seres vivos tão importantes para a cidade. 

A mobilização precisou de bastante fôlego, já que na mesma época aconteciam as obras para receber os jogos da Copa do Mundo. Para se ter uma ideia, somente em duas grandes obras destinadas à recepção dos jogos, foram eliminadas aproximadamente 1150 árvores, 650 no entorno do estádio do Mineirão e 500 quando se implementou os corredores de ônibus na Avenida Cristiano Machado. Elas eram, em sua grande maioria, árvores adultas e plenamente saudáveis. 

Mesmo assim, um inventário, feito em 2018 pela Prefeitura de Belo Horizonte, registrou cerca de 560 espécies de árvores espalhadas pela cidade. O último censo, realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 2010, apontou a capital mineira como a terceira cidade mais arborizada do país, ficando atrás somente de Goiânia e Campinas.  Como o censo 2020 não foi realizado devido à pandemia, será necessário esperar o próximo ano para saber se essa classificação se mantém. 

 

 

De acordo com uma deliberação normativa do Conselho Municipal do Meio Ambiente (Comam), a supressão de árvores e demais formas de vegetação dentro do município de Belo Horizonte deve ser emitida após compensação ambiental, ou seja, uma árvore é retirada com a condição do plantio de outra. 

Mas, por que não é isso que os números nos mostram?

A própria Prefeitura de Belo Horizonte explicou que os tempos de supressão e de compensação ambiental são geralmente diferentes. Quando um empreendimento solicita o corte das árvores para alguma construção, por exemplo, a supressão é feita antes do início das obras. No entanto, o período de compensação é mais longo, podendo ser feito até a finalização ou regulação da obra. 

Outro fator importante de ser lembrado é que a legislação também permite que a compensação ambiental possa ser convertida em outros serviços ambientais, como manutenção de parques, praças ou até mesmo a biofábrica de produção de joaninhas para o controle ecológico. 

 

Fiscalizar sempre!

Para Maia, a existência de políticas públicas direcionadas para essas especificidades das questões ambientais é de extrema importância, mas o fundamental mesmo é que a sociedade civil se mantenha sempre em posição de monitoramento, fiscalização e cobrança. 

“As árvores são um ativo vivo da cidade, elas têm que ser cuidadas e cultivadas. Tem que ter monitoramento, cuidado, combate de pragas. E até mesmo nesse controle, haver uma seleção para que seja pensado nas espécies mais estratégicas para cada região, além se se pensar no equilíbrio de áreas verdes por região. Existem também os indivíduos que podem estar sob uma proteção especial, até mesmo as que podem ser tombadas, dado o valor que ela simboliza. Tudo isso vai exigir um olhar e uma abordagem instrumental para aquela proteção. O Ministério Público atua muito nessa fiscalização, mas também depende do cidadão. Ele é o grande beneficiário da cidade. Do direito à cidade sustentável. Por isso, deve ser vigilante e cuidador, participando das decisões, para desfrutar de uma cidade melhor”, aponta. 

 

Seu candidato pensa nisso ou já falou sobre isso?

Já Luciana Bragança relembra a importância de se pensar em representantes comprometidos com as pautas ambientais das cidades, tendo em vista a aproximação das eleições municipais. 

“Precisamos olhar para as propostas que nos são oferecidas e questionar algumas coisas importantes: como essas pessoas lidam com a verticalização da cidade? O que elas pensam a respeito das áreas verdes da cidade? Quais são as políticas de arborização, de entendimento de espaço público e de direito à moradia que elas buscariam construir? Para mim, quem está nesse lugar de decisão, representando os cidadãos, deve também pensar no direito à cidade daqueles que não são humanos, no direito dos rios, dos parques e das árvores, entendendo essa alteridade que eles carregam. Como que essa narrativa de encontro entre nós, humanos, e os não humanos pode ser construída ou redescoberta?”.  

 

#Aja

Questione os candidatos a prefeito e a vereador de Belo Horizonte

Se você é morador ou eleitor em Belo Horizonte, certamente, tem recebido centenas de disparos em grupos de whatsapp ou postagens e pedidos de “amizade” de candidatos a prefeito e a vereador. Pois bem, faça valer a lógica das redes sociais:

1 – Devolva a quem lhe enviou os disparos de whatsapp perguntas sobre o conhecimento do candidato sobre a Serra do Curral. Questione aos cabos eleitoriais e aos próprios candidatos, qual é a proposta dele para impedir a destruição que vem ocorrendo nesse patrimônio tombado.

2 – Crie hashtags denunciando a destruição na Serra do Curral e poste nos comentários de todas as postagens dos candidatos.


Monte a agenda ambiental da sua cidade. Mobilize. Monitore. Cobre!

 

Em tempos de eleições municipais, onde vamos eleger os próximos prefeitos e vereadores, aumenta a nossa responsabilidade cidadã de agir para evitar retrocessos ou exigir avanços na área ambiental.

Pensando nisso, nós, do Lei.A, montamos algumas sugestões do que você pode fazer. Serve também para quem não é de Belo Horizonte, pois em todo município, a defesa pelo meio ambiente deve ser prioridade de qualquer governante ou legislador.

Para quem não é de BH, deixamos a sugestão para que juntem um grupo de pessoas e façam uma ação voltada a fomentar a presença das pautas ambientais em todas as discussões e debates eleitorais. Segue o fio:

Passo 1 | Pesquise, descubra e liste especialistas e estudiosos sobre o Meio Ambiente da sua cidade. Peça a eles que detalhem as principais questões ambientais que deveriam estar na agenda de discussão dos candidatos.

Passo 2 | Edite esse conteúdo de forma a deixá-lo o mais simples possível. Afinal de contas, queremos que o máximo de pessoas possível compreenda os temas que iremos debater.

Passo 3 | Reúna um grupo de mobilizadores; exponha suas ideias; mostre a importância de impedir que as eleições passem sem que os temas ambientais se tornem compromisso dos candidatos.

Passo 4 | Mapeie veículos de imprensa, influencers digitais, grupos de discussões e até mesmo personalidades públicas nascidas na sua cidade e que se interessariam em ajudar nessa campanha. Lance nesse locais e junto a essas pessoas o desafio de propagar essas discussões até que cheguem aos candidatos.

Passo 5 | Crie uma ou várias hashtags relacionadas a esses pontos levantados e publique nas suas redes, marcando os candidatos ou, até mesmo, comente com a hashtag em todos os posts ou disparos que receber dos candidatos e de seus apoiadores. Peça que a rede que você criou no “Passo 4” faça o mesmo e de forma articulada.

Passo 6 | Todas as vezes que um tema ambiental estiver em discussão, exija um posicionamento concreto dos candidatos sobre essas temáticas e exponha aqueles que se negarem a se posicionar. Faça um print das respostas (ou a falta delas) para cobrá-los num segundo momento.

Passo 7 | Espalhe pela cidade (de forma física ou virtual) mensagens provocando as pessoas a pensarem a água, o lixo, o uso da terra, a exploração do solo, entre outras questões fundamentais para o futuro da cidade. Lembre a elas de pensar nisso quando forem votar.

Passo 8 | Depois das eleições, não deixe o grupo se desmobilizar.

Passo 9 | Compareça às reuniões públicas, como da Câmara de Vereadores e dos conselhos municipais de meio ambiente, urbanismo e patrimônio cultural. Esteja presente em solenidades públicas onde possa cobrar o prefeito sobre algum compromisso de campanha não cumprido.

Passo 10 | Mantenha uma rede de defesa do meio ambiente na sua cidade e incentive a presença desse tema nas rodas de discussões sobre política que você estiver.

 

Próximo episódio

No próximo episódio da nossa série “Belo Horizonte, Meio Ambiente e Eleições 2020”, vamos falar sobre um tema no qual a capital mineira já foi exemplo nacional, mas que hoje, vive um impasse municipal: a destinação e o reaproveitamento de seu lixo.

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