As trilhas perdidas com a lama: o relato de um atleta

O distrito de Macacos, em Nova Lima, Região Metropolitana de Belo Horizonte, ainda tenta superar o medo e as incertezas após as sirenes da Mina Mar Azul anunciarem o aumento do risco de rompimento da barragem B3/B4, em fevereiro de 2019. Desde o toque de alerta, os turistas se afastaram do distrito e a realidade dos moradores se modificou. Eles passaram a conviver com as obras que a Vale, dona da barragem, afirma ser para aumentar a segurança do empreendimento. Porém, existe outro grupo de pessoas que tem sido prejudicado pela atividade. São os praticantes de ecoturismo que fazem trilhas da região. 
O jornalista, fotógrafo e atleta Bernardo Biagioni registrou essas mudanças em fotos. Ele enviou para o Lei.A um relato do risco que vive hoje uma das trilhas mais importantes de Minas Gerais, conhecida como “Perdidas do Rio”, exatamente onde a Vale está construindo um muro de contenção para a lama e, por isso, seu uso está restrito. 
Para chamar a uma reflexão sobre a enormidade de impactos diretos e indiretos o modelo de mineração adotado no Brasil causa, nós trazemos aqui o relato e o ensaio fotográfico produzidos por Biagioni.

 

Não podemos perder a “Perdidas”

Por Bernardo Biagioni

Esta poderia ser uma história sobre “Antes ou Depois”, mas é melhor que seja entendida como uma história sobre o “Agora” de uma vasta natureza que corre perigo. E é válido também dizer que as imagens e palavras poderiam ser usadas para ilustrar múltiplos cenários e contextos que vive Minas Gerais neste presente momento do tempo.

Há quatro anos correndo e pedalando quase cotidianamente pelas margens de Belo Horizonte, desde meados de 2019 venho percebendo uma sequência de caminhos sendo progressivamente subtraídos na icônica trilha Perdidas, patrimônio imaterial para muitos ciclistas, motoqueiros e corredores de Minas Gerais, situada entre o condomínio Vila Del Rey e o distrito São Sebastião das Águas Claras (Macacos).

 

Sob risco de rompimento da barragem B3/B4 da Mina de Mar Azul, em Nova Lima, com alerta emitido em fevereiro de 2019, a mineradora Vale anunciou a construção de um muro de contenção nas proximidades de Macacos, que seria uma das comunidades drasticamente afetadas direta e indiretamente pela possível nova tragédia.

As obras nas fotografias são acessos viários em construção pela mineradora para “evitar que os caminhões trafeguem dentro da vila de Macacos”. E, “por se tratar de uma obra emergencial, não há necessidade de licenciamento prévio”. Segundo nota da empresa, veiculada pela imprensa em Julho, o início das obras foi apenas informado à Fundação Estadual de Meio Ambiente (FEAM).

Para a implementação deste novo sistema viário, a Vale está suprimindo uma grande porção de Mata Atlântica conhecida por Mata do Tumbá, onde vive uma abundante fauna e flora característica do bioma. A estrada asfaltada soterrou um lindo cânion no encontro dos Córregos Grande e Gordura, afluentes do Ribeirão dos Macacos, que também está sendo afetado pelas obras.

Na placa informativa instalada pela empresa na entrada da Trilha Perdidas, próximo do condomínio Vila Del Rey, há um indicativo de “Interdição temporária da Trilha Perdidas do Rio”. Contudo, o que se vê no caminho da trilha hoje é uma grande estrada pavimentada que pouco sugere que a intervenção – e subtração da natureza – seja temporária.  

 

 

Não há dúvidas da urgente necessidade de se proteger vidas, águas e comunidades que estão no curso de um possível rompimento. Contudo, o que cabe ser discutido, dentre todo um universo de outras desinformações, é se, de fato, este sistema viário se revela como única (ou melhor) saída para a construção do referido muro. E se, depois da construção do muro, a Vale tem algum plano de reflorestamento da área que está sendo progressivamente devastada e asfaltada.

Com a intenção de proteger este território das múltiplas especulações sobre seu futuro, especialmente no que se refere à empreendimentos imobiliários, há uma grande luta entrando em campo para a implementação do Parque Perdidas (@parqueperdidas). Com a iniciativa de ciclistas que entendem a importância deste patrimônio, que já foi tombado pelo Decreto nº 6.773, o projeto de transformar a área em Parque vem ganhando força entre toda a comunidade de esportes de montanha.

 

Além de abrigo para uma abundante fauna, flora e nascentes às margens de Belo Horizonte e Nova Lima, a Perdidas é um atrativo natural e social muito importante para Macacos, que tem sua fonte econômica fortemente ligada ao turismo. Sua consolidação enquanto parque certamente fomentaria os empreendimentos da vila, especialmente neste presente momento de incertezas.

Acredito que a melhor forma de preservação de uma paisagem, cidade, natureza ou comunidade se dá pelo sentimento de pertencimento. E, portanto, ofereço este relato como um convite para visitarmos, caminharmos, corrermos e pedalarmos por este vasto território de caminhos. Não podemos perder a Perdidas de vista!

 

Veja o ensaio completo:

 

 

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