ARTIGO: “Parque Já”, uma luta pela última área verde da região Oeste de BH

Durante o primeiro turno das eleições 2020, nós, do Lei.A, publicamos a série especial “Belo Horizonte, Meio Ambiente e Eleições 2020”. Entre os vários temas ambientais caros às cidades, falamos sobre a subtração de áreas verdes. Várias discussões surgiram após a série. Aqui publicamos o artigo de Luara Colpa, moradora do bairro Jardim América e integrante de um dos movimentos que conquistou, por meio da mobilização popular, a única área verde da região Oeste da capital. 

 

Eu sou Luara Colpa, tenho 33 anos. Sou a primeira mulher e pessoa mais jovem a presidir a Associação Comunitária Social Cultural e Desportiva (ACSCD), que comporta os bairros Gameleira, Jardim América, Nova Suíça, Nova Granada e Salgado Filho, na zona Oeste de Belo Horizonte. Faço parte do “Movimento Parque Já”, que luta pela manutenção da última área verde da região Oeste de BH, o chamado Parque Jardim América.

Nasci em São Bernardo do Campo/SP e moro no Jardim América, em BH, desde os seis anos de idade. Na época, eu já estava envolvida em diversas lutas da cidade por Reforma Urbana. Há muito refletindo um modelo de cidade menos mercadológico, mais plural e mais inclusivo. Em uma das lutas com as ocupações (em que foi preciso ocupar a Prefeitura e ali permanecer por quase 30 horas para que o antigo prefeito Márcio Lacerda recebesse em seu gabinete as reivindicações de moradia), também nos foi colocada, pela Associação do Jardim América, a necessidade de também se pautar com o prefeito as áreas verdes de Belo Horizonte, que estavam correndo risco de se extinguirem. 

O mesmo modelo de cidade que acaba com as áreas verdes também isola as pessoas mais pobres. Ali compreendi a complexidade das pautas e da cidade como um todo. Passei a acompanhar de perto a luta de um tesouro que estava exatamente a metros de mim: a chácara Jardim América. Moro exatamente atrás dela, que é um quarteirão de área verde de 23.000 metros quadrados lindeira à avenida Barão Homem de Melo. Uma área particular com um imbróglio jurídico de dívida de impostos intransponíveis, que carecia de intervenção do poder público. E assim iniciou-se a reivindicação para que a Prefeitura olhasse por essa área, afinal, não se tratava só de interesse público como bem resguarda o Direito Administrativo, mas olhar para a cidade de forma sustentável, sobretudo após o advento do Estatuto das Cidades, do Plano Diretor e das Conferências Municipais. 

Leia: Cadê a cidade Jardim Que estava Aqui? 

A nossa luta justa tomou corpo quando judicializamos a questão, depois com o apoio popular, e por fim, em muitas reuniões com o Executivo e Legislativo, que desembocou num acordo, no qual, finalmente, em breve, teremos um parque, o Parque Jardim América.

Viver todo esse universo, me forjou até aqui. Hoje me compreendo como uma pessoa agindo em coletivo; reverenciando a organização popular; vivenciando pequenas vitórias na micropolítica; vendo como possível a transformação também pelos bairros, pelas associações ou como costumávamos chamar: pela base.

São as comunidades e os territórios que ditam a cidade que queremos. Devem ser as pessoas, e não as empresas, a pensarem toda a lógica de cidade, afinal, transporte, moradia, educação, saúde, trabalho e meio ambiente dizem da qualidade de vida de todo um território. O benefício de ter moradores saudáveis é sempre um benefício coletivo. Ou como diriam os zapatistas: “a cura, se existe, é mundial, e tem a cor da terra, do trabalho que vive e morre nas ruas dos bairros”

“Transporte, moradia, educação, saúde, trabalho e meio ambiente dizem da qualidade de vida de todo um território.”

 

Estar nesse lugar de construir saídas possíveis é o que me move – hoje ainda com mais maturidade – a enxergar esperança no porvir. “Até que caibam todas e todos!”

 

Luara Colpa é assessora legislativa, Presidente da Associação Comunitária Social Cultural e Desportiva dos bairros Gameleira, Jardim América, Nova Suíça, Nova Granada e Salgado Filho, integrante do movimento Parque Já e do Politiqueijo

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One Comment

  1. Mateus Soeiro Reply

    Excelente iniciativa para BH, que já foi uma das capitais mais verdes do Brasil e tem perdido cada vez mais seus espaços naturais para dar espaço à especulação imobiliária.

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