A terceira via da comunicação no Brasil

Para finalizar a  semana em que o direito à comunicação foi nosso tema principal, mapeamos projetos que atuam por essa luta

Também indicamos de que forma você pode se aprofundar mais no assunto e contribuir para a conquista de uma mídia democrática

Na última semana, nós do Lei.A tivemos o “Direito à comunicação” como tema central dos conteúdos produzidos para nosso blog, Instagram, Facebook, Whatsapp e Youtube. Foram textos, vídeos e uma live que ajudaram a entender esse conceito e sua importância também no enfrentamento pelos direitos ambientais (está tudo nesses canais, caso você não tenha visto e queira acompanhar). Falamos da guerra midiática entre a grande mídia e as máquinas criminosas de fake news, usadas por políticos e movimentos extremistas ou de interesses econômicos escusos. Debatemos muito sobre a possibilidade de uma terceira via de produção de informações, inclusive para a comunicação ambiental.

 

#Conheça 

Nesse conteúdo aqui, queremos contribuir para que você conheça alguns projetos que caminham nessa “terceira via”. Eles são emissores dessas ideias, permitindo aliviar, pouco a pouco, as restrições à participação pública na construção de uma comunicação social onde todos e todas possam falar, ouvir e ter acesso a informações responsáveis.

Listamos apenas alguns de um universo – felizmente – grande de iniciativas. Portanto, ao final da leitura, caso queira indicar outros, comente nas nossas redes sociais; nos mande “directs” ou mesmo replique nas suas próprias redes para que mais e mais pessoas possam conhecer. 

#Monitore

Ao registrarem acontecimentos sob outras perspectivas e a partir de suas próprias experiências de vida, esses projetos provam ser possível produzir conteúdos de qualidades jornalística,  estética e informativa mesmo sem o suporte e a infraestrutura com os quais contam os grandes meios. Eles também mostram ser possível seguir a tal terceira via citada no nosso último texto, que não seja nem a via da privatização dos meios de comunicação nem a da disseminação de conteúdos mentirosos e sensacionalistas. Vamos às nossas dicas!

 

Jornal A Sirene

Desde 2016 o jornal mensal é feito pelos moradores e moradoras das comunidades destruídas pelo rompimento da Barragem de Fundão, da Samarco, nos municípios de Mariana e Barra Longa. A Sirene é um dos projetos de comunicação mais inovadores do país nos últimos tempos, pois criou uma metodologia inédita para o processo jornalístico, de forma a dar protagonismo e entendimento técnico aos próprios atingidos. São eles quem definem as pautas, apuram, escrevem e editam o material, sempre com o apoio de profissionais de comunicação e de estudantes de jornalismo da Universidade Federal de Ouro Preto (Ufop). Assim, as comunidades afetadas pela lama têm a oportunidade de contar suas versões dos fatos, registrando historicamente cada parte de um processo de reparação. 

Por meio da formação de repórteres populares, todo o conteúdo do Jornal A Sirene é produzido por pessoas atingidas pelo rompimento da barragem da Samarco. Crédito: Flávio Ribeiro.

 

Em 2018, nós do Lei.A promovemos uma oficina para os atingidos pela barragem da CSN, em Congonhas, e levamos a equipe do Jornal A Sirene para falar um pouco de suas experiência em Mariana. Confira como foi.

O jornal A Sirene também é um forte instrumento para provar a violação de outro direito, o direito à memória. Seu custos são cobertos doações feitas à Arquidiocese de Mariana e por meio de verbas de reparação impostas pelo Ministério Público.

Internet Sem Fronteiras

Criada em 2007, na França, a Internet Sem Fronteiras (ISF) atua na defesa da liberdade da expressão online e apoia blogueiros, jornalistas e dissidentes políticos. Com atuação em diversos continentes e países, a organização chegou ao Brasil em 2013 para implementar seu primeiro projeto de “Jornalismo Cidadão” em escolas de Belo Horizonte. A ação teve os objetivos de incentivar a consciência crítica dos jovens em relação à mídia e possibilitar que adquirissem na prática um melhor entendimento sobre política, para que se tornassem cidadãos mais ativos. Nos anos seguintes, a organização continuou trabalhando com projetos de mídias com jovens moradores de ocupações urbanas (projeto “Ocupa Mídia”) e professores (projeto “#MidiaNaEscola”). O ISF já conquistou vários prêmios e agregou milhares de jovens na conscientização de que todos nós somos comunicadores em potencial. 

Projeto “Ocupa Mídia”, realizado em ocupações de Belo Horizonte. Crédito: Arquivo Ong Internet Sem fronteiras.

 

Internet Sem Fronteiras atuando na Escola Estadual Olegário Maciel, em Belo Horizonte. Crédito: Arquivo Ong Internet Sem fronteiras.

 

Intervozes – Coletivo Brasil de Comunicação Social

O Intervozes atua desde 2003 em busca da transformação da comunicação em um bem público, para efetivá-la como um direito humano.  Cada associado do Intervozes é, ao mesmo tempo, um promotor de ações locais e um colaborador na formulação e realização de estratégias nacionais, voltadas ao direito à comunicação, adotadas pelo coletivo. O grupo elabora pesquisas, produz conteúdos de referência sobre o que acontece no setor e realiza monitoramento de mídia como ferramenta para incidir na elaboração de políticas públicas voltadas ao tema. Também estão à frente de ações territoriais, realizando minicursos, oficinas e palestras em comunidades vulneráveis e para outros grupos voltados ao objetivo de democratizar a mídia no Brasil. 

 

Oficina de Imagem

O audiovisual é a ferramenta usada por esse coletivo que tem como objetivo principal de sua atuação promover os direitos das crianças e dos adolescentes. Seus projetos contam com metodologias de formação em comunicação e mobilização social de adolescentes e jovens para que sejam sensibilizados em relação a temas muitas vezes difíceis de serem abordados, como violência social e trabalho infantil. O coletivo surgiu a partir da reflexão sobre o papel dos meios de comunicação na formação política de jovens e educadores, e segue essa reflexão em todas as frentes de atuação.  A instituição se tornou uma referência no Brasil e na América Latina no desenvolvimento de projetos em escolas e territórios vulneráveis, baseados na chamada “baixa tecnologia de ponta”. 

Crianças e adolescentes são o foco da atuação da Oficina de Imagens. Crédito: Arquivo Oficina de Imagem.

 

Coletivo Mica – Mídia, Identidade, Cultura e Arte

Seja por meio de oficinas de fotografia e audiovisual ou por meio de informativos virtuais direcionados à comunidades atingidas pela mineração, o coletivo MICA vem há cinco anos ampliando sua atuação de comunicação popular em Minas Gerais. Criado dentro da Universidade Federal de Ouro Preto (Ufop) a partir de um projeto de extensão do curso de jornalismo, o grupo realiza formação de repórteres populares e ações educativas em espaços como escolas e periferias. 

Coletivo MICA atua pela formação de crianças e jovens com uma leitura crítica do mundo. Créditos: Jorgin da Bahia.

Revista Quadrilátero

A revista digital surgiu na microrregião da Serra do Caraça, em 2019, para ser um espaço de debate sobre um tema frequente na região: a dependência econômica de Minas Gerais em relação à mineração e as suas consequências. Considerando a necessidade de diversificação da economia, ou seja, do investimento e do incentivo ao turismo, à agricultura, à pecuária, à indústria e ao comércio, a publicação busca fazer uma cobertura sobre os municípios de Barão de Cocais, Catas Altas e Santa Bárbara. Conta com colunistas fixos, redatores e também com colaboradores esporádicos em sua estrutura e segue sendo uma fonte segura de informações para quem deseja saber sobre os conflitos de mineração sob a perspectiva de diferentes especialistas e cidadãos que os vivem na pele, pontos de vista que a grande mídia dificilmente alcança com completude.

Reportagem da Revista Quadrilatero mostra moradores fora da chamada “Zona e Mancha”, olhando para a comunidade de Socorro, evacuada devido à ameaça de rompimento de uma barragem da Vale. Crédito: Rafael Augusto Gomes.

 

 

Fórum de Comunidades Tradicionais de Angra dos Reis, Paraty e Ubatuba

A organização reúne há doze anos indígenas, caiçaras e quilombolas em projetos de comunicação comunitária que buscam o protagonismo e permanência das comunidades

tradicionais em seus territórios. As ações trabalham o turismo de base comunitária, a educação diferenciada, o saneamento ecológico, a agroecologia, a cultura, o protagonismo das mulheres e tantas outras pautas comuns a esses moradores e moradoras muitas vezes invisibilizados. Uma das grandes realizações do Fórum é o Projeto Povos, em parceria com a Fiocruz, que possibilitou a organização de um planejamento de comunicação, partir do qual, todos os conteúdos disseminados pudessem ser pautados, produzidos, editados e publicados pelas próprias comunidades tradicionais. A iniciativa já está em execução e vai colocar de vez, no mapa do Brasil, os territórios, identidades e tradições de 64 comunidades tradicionais indígenas, caiçaras e quilombolas de Angra dos Reis (RJ), Paraty (RJ) e Ubatuba (SP). A previsão é de que até 2023 o mapeamento esteja pronto.

Jovens indígenas, quilombolas e caiçaras de diferentes regiões da costa verde do Rio de Janeiro integram o fórum com o intuito de debater estratégias e planejamentos de ações. Crédito: Arquivo Fórum Comunidades Tradicionais.

 

Voz da Comunidade

A história desse projeto prova que nunca é cedo demais para acreditar da comunicação popular. Com apenas onze anos, Rene da Silva dos Santos, um morador do Morro do Adeus, na cidade do Rio de Janeiro, se envolveu em um projeto da escola no qual os alunos faziam um jornal para mostrar o que acontecia no ambiente escolar e propor melhorias na qualidade da educação. Ao perceber a potência da ideia, resolveu criar o jornal Voz da Comunidade, no qual falaria a respeito da região onde morava, contando o que existia de bom naquela favela e escrevendo sobre os problemas sociais considerados mais relevantes por quem morava nela. O projeto, que começou em 2005, foi ganhando novas vozes e mais visibilidade ao longo do tempo, expandindo e atuando hoje em dia em nove comunidades do Rio de Janeiro. 

A versão impressa do jornal também é distribuída em várias comunidades do Rio de Janeiro, como o Complexo do Alemão. Crédito: Arquivo Voz das Comunidades.

 

Énóis – Agência de Jornalismo

O projeto funciona como um laboratório sem fins lucrativos, que trabalha para a construção de um jornalismo diverso e representativo. Foi criado em 2009, a partir de cursos realizado com estudantes do Capão Redondo, na época conhecido como um dos bairros mais violentos da periferia da cidade de São Paulo. Desde 2014, a organização por meio da Escola de Jornalismo, uma instituição online voltada para o público jovem. Nela, cursos gratuitos são apresentados por meio de videoaulas, instrutores especialistas e materiais de referência num formato de tutorial, inovando a linguagem utilizada para educação online. Hoje a plataforma já conta com cerca de 54 mil alunos cadastrados. Desde então, são mais de 50 reportagens e projetos produzidos, como o “Identidade Parcelada”, uma reportagem multimídia sobre consumo e influência de marcas sobre jovens da periferia, o “Menina Pode Tudo”, uma investigação sobre machismo e violência contra jovens de periferia, com participação de meninas de cinco capitais, e o“Jovens Políticos“, uma grande reportagem sobre a bancada jovem na Câmara dos Deputados.

A Escola de Jornalismo apoia, desde 2009, o desenvolvimento de jovens das periferias que aprendem, refletem e produzem conteúdos sobre seus territórios. Crédito: Arquivo Énóis.

#Aja

1 – Converse mais sobre “direito à comunicação”

Se você quer se aprofundar mais na temática do direito à comunicação, uma boa forma de agir é buscar conteúdos que abordem o assunto de forma responsável. O Intervozes, por exemplo, elabora com frequência materiais interessantes, como o vídeo “Levante Sua Voz” e a Cartilha “Caminhos para a luta pelo Direito à Comunicação no Brasil”, onde é possível encontrar informações bastante didáticas sobre o sistema de comunicação do Brasil e das alternativas possíveis para a democratização do setor.

2 – Estude como produzir conteúdo responsável 

O Fundo Brasil de Direitos Humanos oferece a publicação “Direito à Comunicação e Publicação de Conteúdos”. A cartilha traz orientações para o compartilhamento de conteúdos na internet, além de oferecer um roteiro para a produção audiovisual, um dos principais instrumentos para comunicar na rede.

3 – Apoie o jornalismo independente (mas cobre profissionalismo)

Outra forma de se movimentar pela causa é ampliar o alcance dos projetos que citamos, seguindo-os nas redes sociais, compartilhando os que você achar interessante com outras pessoas e divulgando os conteúdos produzidos por eles. Você também pode conhecer melhor as mídias independentes do país, aquelas que não estão vinculadas a compromissos com anunciantes, grupos políticos ou instituições governamentais. A Agência Pública fez o “Mapa do Jornalismo Independente”. Caso você se identifique com algum, vale a pena avaliar a possibilidade de contribuir financeiramente para que o projeto siga existindo também. Muitos desses veículos precisam desse apoio para seguirem em frente. 


4 – Cheque sempre a informação que pula na sua tela!

Por fim, e não menos importante, é preciso lembrar de agir para combater as notícias falsas que circulam nos canais virtuais ao nosso redor. A nossa dica é contar com a ajuda das agências de verificação para não deixar nenhuma mentira passar batido. A Agência Lupa, o Aos Fatos,  Agência Pública são integrantes da International Fact-Checking Network (IFCN), que possui uma carta de princípios em comum para iniciativas de checagem de todo o mundo. 


5 – Apoie a comunicação ambiental!

Nós do Lei.A estamos na luta por transformar a comunicação como uma das mais potentes ferramentas na luta pela defesa do meio ambiente em Minas Gerais. Ajude a divulgar nosso trabalho também. 

 

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