A importância da biodiversidade e os riscos para sua conservação em Minas Gerais

O que é a biodiversidade? Por que, afinal, ela é tão importante? E quais os principais riscos hoje para sua conservação em Minas Gerais? Em entrevista ao Lei.A, o pesquisador da Fundação Biodiversitas André Vieira Quintino cita espécies criticamente ameaçadas no Estado e comenta quais podem ser os efeitos de seu possível desaparecimento para quem vive nas grandes cidades.

A Biodiversitas trabalha com a conservação de espécies criticamente ameaçadas de extinção em áreas como a Reserva Mata do Passarinho, que protege o pássaro entufado-baiano, a Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN) Mata do Sossego, dedicada à conservação do muriqui-do-norte, um dos primatas mais ameaçados do planeta, e a Reserva Ninho da Tartaruga, que protege o cágado-do-paraíba, um dos 25 quelônios (animais com casco) mais ameaçados do mundo.

Confira a entrevista!

O que, afinal, é a biodiversidade?

Basicamente, a biodiversidade representa um conjunto de espécies de um determinado local e de uma determinada época. Ou seja, a biodiversidade são os diferentes tipos de vida que partilham o mesmo ambiente em um mesmo tempo.

E por que a biodiversidade é importante?

Cada espécie tem sua função e é responsável pela regulação do meio ambiente. Então, se você retira uma espécie, você acaba com o serviço ecossistêmico que aquela espécie garante. Por exemplo, os pássaros. Alguns são responsáveis pela polinização de flores, enquanto outros que se alimentam dos frutos serão responsáveis pela dispersão de sementes, principalmente por meio das fezes, e outros que se alimentam de insetos serão responsáveis pelo controle de vetores de doenças como a febre amarela. Esses “serviços” são conhecidos como serviços ecossistêmicos e são essenciais para a manutenção e conservação de todo o ecossistema.

Pode dar exemplos práticos dos riscos que já ocorrem em Minas?

Ameaçado de extinção, o entufado-baiano é um passarinho que come insetos nos solos das florestas, ajudando, por exemplo, a controlar essas populações. O muriqui-do-norte, um macaco que vive na região da Mata do Sossego, come frutas e dispersa sementes que podem ajudar na recuperação de áreas degradadas. Já o cágado-do-paraíba, outra espécie com a qual trabalhamos, vive apenas em mananciais muito conservados e funciona como um bioindicador natural importante da qualidade da água. Todos estas espécies, infelizmente, estão ameaçadas de extinção. E, quando elas desaparecem, desaparecem também os serviços ecossistêmicos que elas prestam para a regulação do meio ambiente.

Qual a importância destes serviços ecossistêmicos para quem vive nas cidades?

Cada espécie tem um papel para o equilíbrio do ambiente. Se uma espécie é retirada, algum desses “serviços” vai sofrer prejuízo e alguma função importante vai deixar de ser feita, causando um desequilíbrio no ecossistema que pode levar ao aumento de pragas, epidemias e à diminuição na produtividade no campo e também ao consequente aumento nos preços dos supermercados. Hoje fica até mais fácil exemplificar essa questão por causa da febre amarela, que nos mostra o que pode ocorrer quando se desestabiliza um ambiente natural.  Com a degradação ambiental, pode haver a diminuição das populações naturais que fazem o controle populacional dos mosquitos. Ou seja, algumas espécies de anfíbios ou répteis, por exemplo, que são predadores dos mosquitos adultos, além de espécies de peixes que se alimentam das larvas desses mosquitos podem desaparecer, causando um desequilíbrio ambiental e a proliferação da doença.

Qual a peculiaridade de Minas Gerais em relação a outros estados no que se refere à biodiversidade?

Minas representa apenas 6,9% do território nacional. Apesar disso, abriga três biomas: a Caatinga, o Cerrado e a Mata Atlântica. Com isso, abriga um quarto da diversidade de vertebrados, 35% da flora e uma grande parte da biodiversidade de invertebrados e microrganismos conhecidos no país.

E quais as principais ameaças hoje para a biodiversidade no Estado?

Uma das principais ameaças, citada inclusive na Lista Vermelha de Espécies Ameaçadas, é a perda dos habitats onde essas espécies vivem naturalmente.  Ela ocorre, como em outros estados do país, devido à falta de planejamento territorial, à utilização dos recursos naturais de forma não sustentável e à poluição. O principal bioma em risco é a Mata Atlântica, porém o Cerrado e a Caatinga também vêm sendo muito pressionados e contam com menos pesquisas e recursos para a proteção da sua biodiversidade. Isso coloca a urgência da recuperação de habitats degradados e da criação de novas áreas protegidas, que são políticas públicas importantes com as quais a Fundação Biodiversitas trabalha.

O que o cidadão comum pode fazer para apoiar a proteção da biodiversidade?

As pessoas podem, em primeiro lugar, ficar mais antenadas sobre as questões ambientais de Minas Gerais Estado e apoiar projetos de organizações governamentais e não governamentais que já apoiam a conservação da biodiversidade. E é importante lembrar também que estamos em ano eleitoral, o que torna ainda mais importante verificar as propostas dos candidatos sobre a questão ambiental e cobrar das autoridades o cumprimento da legislação ambiental.

E quais serão as bandeiras mais importantes da Fundação Biodiversitas em 2018?

O principal objetivo da Biodiversitas é a conservação da biodiversidade brasileira, com foco, principalmente, nas espécies ameaçadas de extinção. A Biodiversitas tem quatro ‘reservas ambientais’ para proteção de espécies ameaçadas e a ideia é atuar na conservação dessas e de outras espécies e na geração de conhecimento para subsidiar políticas públicas. Quem quiser saber mais, pode acessar o site www.biodiversitas.org.br.

 

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